Na Mídia

A grandeza do Vasco

Vejam que depoimento importante sobre os primeiros anos do Vasco, dado pelo Jornalista Mário Filho, no ano de 1956:

 

mariofilhoO que marcou o Vasco foi o futebol e não o remo. Como remo o Vasco se ofendia menos. A prova está naquela piada do "Entra Basco que o meu marido é sócio". Nasceu em voz de falsete no pavilhão, todo de ferro lavrado, da Praia de Botafogo. Era uma espécie de tribuna de honra do remo. Parecia grande e era pequeno, com uns cinco degraus, se tanto. Quem disse a piada pela primeira vez era do Flamengo. Mas a piada só alcançou sucesso no futebol. Então o português se ofendeu e, se ofendendo, meteu-se-lhe na cabeça fazer do Vasco o maior clube da América do Sul. Naquele tempo a geografia do torcedor não ia mais longe. A descoberta da Europa só se verificou em 24, quando o Paulistano andou pela Europa. É o caso de se perguntar como seria o Vasco se não tivesse mexido com o português. O Vasco ficara na sede e na garagem de Santa Luzia, que não eram essas coisas.

Talvez, sem a piada, sem a ofensa ao português, o Vasco se contentasse com o campo da rua Moraes e Silva. Mas aqueles "Entra Basco que o meu marido é sócio", "O Basco é uma putência", com U, foram preparando a reação do português. Enquanto o Vasco venceu, o português achou graça. Ria com os outros e mais até que os outros, que acabavam baixando a cabeça, calando a boca, porque o Vasco entrava mesmo. Pode-se começar a contar a história da grandeza do Vasco do dia em que ele perdeu para o Flamengo. Era uma derrota só num campeonato de vitórias, o de 23, mas parecia que ninguém nunca perdera, que o Vasco era o primeiro a perder. Foi um gozo. Durante uma semana não se fez outra coisa senão caçoar do português. O português achou, então, que a única solução era a vitória. E meteu a mão no bolso.

Mexia-se muito com o português naquela época. E só quem a viveu pode fazer uma idéia do papel que representou o Vasco na identificação completa do brasileiro e do português. Foi através do Vasco que o brasileiro conheceu melhor o português. E conhecendo aprendeu a gostar dele, aberto, franco, generoso, lusidíaco, se me permitem o termo. Há sempre um Albuquerque em qualquer português. O que o português fez no Vasco cabia numa página dos Lusíadas. Do campinho da rua Moras e Silva, o Vasco deu um salto para São Januário. Gozado, o português sentiu despertar nele, invencível, a velha fibra lusitana. Hoje o Maracanã não deixa ver direito o esforço gigantesco.

Quando, porém se inaugurou São Januário, olhando-o, medindo-o com os olhos do espanto, muita gente achou-o um despropósito. Para que um estádio daquele tamanho? Já o do Fluminense, para encher, só com o Vasco. Ampliado em 22, o estádio das Laranjeiras parecia, antes do Flamengo x Vasco de 23, o Maracanã antes do Brasil x Uruguai de 50. Qual, não ia encher nunca. O Vasco, porém, queria tudo assim, gigantesco, o maior de todos e de longe. Só assim, foi o que se meteu na cabeça do vascaíno, poderia viver tranqüilo, respeitado, livre de graçolas. Para poder trabalhar em paz e ganhar o seu dinheiro.

Hoje ninguém faz idéia do que era a vida de um vascaíno naquele tempo. Ele vivia sob a ameaça de uma derrota do Vasco. Se o Vasco perdesse ele teria que se esconder. Não adiantavam os cartazes pendurados ao lado das registradoras: "Roga-se não falar em futebol". E não se falava em outra coisa. Uma das graças de Bernardo Wull, esse mesmo, depois da derrota do Vasco, era pegar um maço de jornais e bancar o jornaleiro na porta da Casa Campos. Olha a derrota do Vasco, a grande derrota do Vasco, olha a derrota do Vasco! Com um pouco o trânsito estava impedido. E não se podia entrar e nem sair na Casa Campos. Daí esse ideal vascaíno de invencibilidade. Para isso se fez o Vasco tão grande. E cada vez maior, maior, maior.

O que ajudou o Vasco a crescer atrapalhou-o um pouco. Porque é impossível atingir o ideal da invencibilidade. Não basta ter o melhor time, um verdadeiro escrete. O Vasco foi o clube do escretes, Fazia-os e desfazia-os. Era só o escrete perder. Ciro Aranha foi o primeiro presidente do Vasco a compreender que o Vasco tinha, também, de pagar o quinhão da derrota. Ensinou o Vasco a esperar. Só um brasileiro, dentro do Vasco, podia compreender isso. Porque não temia as graçolas, cada vez mais raras, de outros brasileiros. O Vasco era tão brasileiro como o mais brasileiro dos clubes.

O destino do Vasco era o mesmo do Brasil português: tornar-se brasileiro. Mesmo se o Vasco não adquirisse a popularidade que adquiriu, conquistando uma imensa legião de torcedores brasileiros, o português se encarregaria disso. Porque ele viera ao Brasil para ficar. E aqui criava família, estendia as raízes brasileiras. O certo é que as piadas foram desaparecendo. O Vasco podia perder. Já o sócio não rasgava a carteira, que era outra piada. O brasileiro acostumou-se a respeitar o português. Não se podia caçoar do português: senão, em vez de São Januário, ele construiria um Maracanã.

Por isso não se sabe se a morte da piada à custa do vascaíno fez mais bem ou mais mal ao Vasco. Fez bem porque o vascaíno já não perde a cabeça com uma derrota do Vasco. Mas a gente não deve esquecer que foi perdendo a cabeça que o vascaíno fez aquelas admiráveis loucuras, que transformaram o Vasco no colosso de São Januário. É verdade, porém que o Vasco construiu a piscina e a sede náutica sem ser espiaçado. E não foi só o português que meteu a mão no bolso. O brasileiro também. O Vasco sabe que pode sonhar qualquer coisa e que tem forças para transformar qualquer sonho em realidade.

Exceto aquele de não perder nunca. Foi a solução que ele aprendeu e que é como a repetição daquela história do pai que, ao morrer, confessou aos filhos que tinha enterrado uma fortuna. Os filhos cavaram tudo em busca do tesouro. Enquanto não encontravam o tesouro, iam plantando pra viver e, plantando, tornaram-se ricos. O trabalho é que era o tesouro. Mas se não sonhassem com o tesouro enterrado, os filhos se dispersariam, não se apagariam a terra, não a cavariam, não a lavrariam.

O Vasco precisava do estímulo, do acicate da piada. Precisava sentir-se ofendido e humilhado, que o foi. E escorraçado, de campo a campo. O campo da rua Moraes e Silva só servia para treino. Lá foi o Vasco para o campo do Fluminense. Mas o torcedor do Fluminense ia para trás do gol de Nelson da Conceição. E toca a dizer coisas. O Vasco saiu do Fluminense e caiu no campo do Flamengo, o da Paissandu, o das palmeiras, que esticavam pescoços intermináveis de girafas, deitando-se no espelho de sombra do gramado. E foi, como se pode imaginar, muito pior. Os gols, no campo do Flamengo, ficavam quase encostados ao muro. Assim o torcedor do Flamengo podia gritar coisas quase ao ouvido de Nelson Conceição.

E lá teve o Vasco, feito um errante dos campos, que ir para o Andaraí. No Andaraí ele era como o dono. Pagava o campo, o Andaraí precisava daquele aluguel, que não falhava. Mas o Vasco já caminhava para São Januário. A resposta dele àqueles torcedores que mexiam com Nelson Conceição, que tantas faziam que Nelson Conceição acabava engolindo um gol que não devia entrar, foi São Januário. Agora o Vasco não tem mais que responder a ninguém. De quando em quando sente saudades daquele tempo, quer se ofender de novo, mas a verdade é que não precisa. Basta querer para fazer, e ninguém duvida disso.

Autor: Mário Filho

Fonte: Revista Manchete Esportiva

Data: Agosto/1956

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